

Em um capítulo que expõe as tensões entre o Judiciário e os bastidores do poder, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelou ter rejeitado uma proposta que classificou como "delação seletiva" apresentada pela defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A declaração foi feita durante o julgamento na Segunda Turma que manteve as prisões preventivas de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo do banqueiro .
A expressão "delação seletiva", usada por Mendonça, refere-se a uma tentativa de acordo de colaboração premiada que excluiria determinadas pessoas ou fatos da apuração — blindando aliados em troca de informações parciais. "Perderam o pudor", afirmou o ministro ao relatar o episódio. "Queriam fazer uma delação seletiva. Na minha cara. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação seletiva, comigo, não" .
Mendonça fez questão de esclarecer que o advogado que lhe apresentou a proposta não era José Luís de Oliveira Lima, o "Juca", que deixou a defesa de Vorcaro após um desentendimento com o relator . Segundo apuração do colunista Malu Gaspar, o profissional seria Roberto Podval, que também já não integra mais a equipe de defesa do banqueiro .
Fontes relataram que Podval teria sugerido que uma eventual delação não incluísse ministros do STF — como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — nem o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o que o advogado nega . A proposta, ainda segundo relatos, demonstrava uma tentativa de transformar a colaboração em instrumento de proteção seletiva, o que Mendonça rechaçou de imediato.
Além da recusa à proposta seletiva, Mendonça tem demonstrado crescente ceticismo quanto à viabilidade de qualquer acordo com Vorcaro. Desde que as negociações começaram, em março, pelo menos quatro novas fases da Operação Compliance Zero foram deflagradas, provando que a investigação "caminha com as próprias pernas" — o que tornaria a delação dispensável .
Também pesam contra o ex-banqueiro a recusa da Polícia Federal em avalizar a proposta inicial de delação e o fato de Vorcaro, mesmo preso, sustentar publicamente sua inocência, o que contraria a essência da colaboração premiada, que pressupõe o reconhecimento de culpa e o arrependimento .
Mendonça também alertou para o que chamou de "um sistema articulado" que tenta criar "vícios" na investigação para anulá-la . "Há uma perspectiva de que certos setores atuam para criar um vício. Tudo o que querem é criar um vício. Há um sistema articulado para isso. Eu não sou cego. Estou acompanhando e assistindo os movimentos", declarou o ministro .
Investigadores avaliam que o entorno de Vorcaro tenta reduzir o protagonismo de Mendonça na análise da delação, com a estratégia de levar o caso à Segunda Turma do STF — composta, entre outros, pelos ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli — caso o relator rejeite homologar o acordo . O movimento é comparado ao ambiente político-institucional que se formou no período pós-Lava Jato .
A recusa de Mendonça à "delação seletiva" e sua resistência ao acordo com Vorcaro revelam um momento delicado do caso Master, que já envolve não apenas suspeitas de fraudes bilionárias, mas também uma disputa de narrativas e influências no coração do sistema de Justiça. A fala do ministro — ao mesmo tempo contundente e medida — deixa claro que, para ele, a colaboração premiada não pode se tornar um instrumento de blindagem de aliados. "Delação seletiva comigo, não" .
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