

O caso do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, ganhou novos contornos explosivos nas últimas semanas. Enquanto a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formava maioria para manter sua prisão preventiva, os bastidores políticos de Brasília foram sacudidos por revelações sobre o conteúdo de suas propostas de delação premiada — incluindo a citação de um ministro do governo Lula e a menção a uma suposta doação de R$ 20 milhões no caixa 2 .
No julgamento virtual iniciado em 13 de março de 2026, os ministros André Mendonça (relator), Luiz Fux e Nunes Marques votaram pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro. Apenas o ministro Gilmar Mendes ainda não havia votado até o fechamento desta reportagem, e Dias Toffoli se declarou suspeito para atuar no caso .
A decisão de manter Vorcaro atrás das grades representou um revés para uma articulação política nos bastidores. Segundo apuração do blog da jornalista Andreia Sadi, lideranças do Centrão procuraram ministros do STF para defender que o banqueiro fosse transferido para a prisão domiciliar. O argumento seria o de que uma eventual delação premiada poderia atingir "atores políticos relevantes". A tentativa, no entanto, gerou constrangimento no tribunal. "Seria um escárnio soltar o banqueiro diante do volume de evidências", teria dito um ministro ouvido pelo blog .
Mendonça foi enfático em seu voto ao descrever o grupo liderado por Vorcaro como uma "perigosa organização criminosa armada". Investigações da Polícia Federal apontam que o banqueiro mantinha uma espécie de milícia privada para intimidar concorrentes, ex-funcionários e jornalistas. O grupo se comunicava em um grupo de WhatsApp chamado "A Turma". Um dos supostos integrantes, Luiz Phillipi Mourão, apelidado de "Sicário", tirou a própria vida na carceragem da PF em Belo Horizonte logo após ser preso .
"São profissionais do crime, que atuam de forma coordenada, com a captação ilícita de servidores públicos dos mais altos escalões da república, ao mesmo tempo que buscam influenciar a opinião pública contra os agentes do Estado envolvidos na investigação" — trecho do relatório da PF citado pelo ministro André Mendonça .
O grande trunfo que Vorcaro ainda tem em mãos é a possibilidade de firmar um acordo de delação premiada. Segundo informações publicadas pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o ex-banqueiro já entregou duas propostas de colaboração à Procuradoria-Geral da República (PGR) e à Polícia Federal .
No centro das atenções está a citação de pelo menos um ministro do governo Lula. Trata-se de Alexandre Silveira, titular da pasta de Minas e Energia. De acordo com fontes ligadas à investigação, Vorcaro afirmou em seu relato ter feito repasses no caixa 2 para a campanha à reeleição de Silveira ao Senado em 2022, quando o ministro ainda era filiado ao PSD de Minas Gerais. O valor mencionado é de R$ 20 milhões .
A informação, no entanto, ainda é tratada com cautela pelos investigadores. Fontes da PF e do MPF consideram que os relatos de Vorcaro são "insuficientes", pois ele não teria especificado as contrapartidas do suposto acerto de caixa 2. Procurado, o ministro Alexandre Silveira não respondeu às perguntas da reportagem. Interlocutores próximos afirmam que ele não conhecia Vorcaro à época e consideram a alegação "sem sentido" .
Vale lembrar que não há registros no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de doações oficiais de Vorcaro ou de seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel, para a campanha de Silveira. Zettel, por sua vez, doou oficialmente R3milho~esparaacampanhadeJairBolsonaroeR 2 milhões para Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador de São Paulo em 2022 .
O emaranhado de relações envolvendo o Banco Master também atingiu o próprio STF. Dias Toffoli se declarou suspeito para julgar o caso por "foro íntimo" após revelações de que uma empresa de sua família, a Maridt Participações, vendeu parte de um resort no Paraná para um fundo ligado ao Master. Toffoli nega ter recebido qualquer valor diretamente de Vorcaro, mas o desgaste institucional foi suficiente para que ele se afastasse da relatoria, que passou para André Mendonça .
A manutenção da prisão preventiva aumenta a pressão sobre Vorcaro para que feche um acordo de delação com detalhes mais concretos. Até o momento, sua defesa nega que haja intenção de delatar. No entanto, a permanência na prisão — e não em casa — costuma ser um poderoso incentivo para colaboradores em negociações com a Justiça.
Caso a delação avance, as citações a Alexandre Silveira e a promessa de detalhamento dos R$ 20 milhões podem se transformar no maior terremoto político a atingir o governo Lula desde o início do terceiro mandato. Por ora, o ex-banqueiro permanece preso, e o STF deixou claro: o risco de obstrução da justiça e a gravidade dos crimes — que incluem a formação de uma milícia armada — superam qualquer argumento político para concessão de benefícios como a prisão domiciliar .
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