

O recente caso da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan reacendeu um debate essencial para a saúde pública e para a democracia: até onde vai o legítimo entusiasmo por um novo imunizante, e onde começa o perigoso silenciamento de perguntas necessárias?
Dados oficiais mostram que a vacina do Butantan registrou, até o momento, 42 reações graves e dois óbitos em investigação. Embora não haja, até agora, comprovação de causalidade direta entre as mortes e a vacina — e tais eventos possam estar dentro da margem estatística esperada para qualquer imunobiológico de larga escala —, a existência desses episódios exige, por princípio ético e sanitário, investigação minuciosa e comunicação clara à população.
No entanto, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou a mesma vacina, classificou críticas ou dúvidas como “sectarismo negacionista”. A fala presidencial, embora compreensível em um contexto de combate ao movimento antivacina organizado que grassou durante a pandemia, corre o risco de produzir um efeito colateral perigoso: o de equiparar qualquer questionamento técnico a negacionismo.
O grande risco, evidenciado por esse episódio, é a criação de um ambiente no qual cientistas, médicos e jornalistas hesitem em relatar ou aprofundar análises sobre reações adversas por medo de serem rotulados como inimigos da imunização. A história recente mostra que a confiança pública nas vacinas não se constrói apenas com comemorações oficiais, mas sobretudo com transparência radical — inclusive sobre eventos raros e graves.
O Butantan, instituição centenária de credibilidade internacional, tem todo o interesse em ver suas vacinas escrutinadas com rigor. Censurar perguntas não protege imunizantes; ao contrário, alimenta exatamente o ceticismo que se pretende combater. Celebrar a ciência exige coragem para também investigar, notificar e comunicar suas sombras. Caso contrário, a defesa da vacina se confunde com dogma — e o dogma, diferentemente da ciência, não admite perguntas.
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