

Motoristas do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande, relatam uma rotina de pressão psicológica, cobranças abusivas e condições de trabalho precárias. A empresa é alvo de um inquérito civil do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS) que apura uma série de irregularidades trabalhistas.
Aberto em dezembro de 2025, o inquérito já notificou as empresas do consórcio. No entanto, os relatos de problemas no ambiente de trabalho persistem e se intensificam, conforme testemunhos colhidos pela reportagem.
Funcionários afirmam que são forçados a arcar com os custos de avarias nos veículos, mesmo aquelas causadas pelas más condições das ruas, como buracos. Um motorista, que preferiu não se identificar, contou que trabalha há apenas um mês na empresa, mas já se sente em uma “prisão” trabalhista.
“Toda avaria que acontece com o ônibus, inclusive se o pneu rasga nos buracos, nós que temos que pagar. Eles dizem que, enquanto a gente não pagar tudo o que deve, a gente não pode sair da empresa. Se sairmos, essas contas vão atrás da gente”, desabafou.
Além disso, os trabalhadores afirmam ser coagidos a não pedir demissão enquanto tiverem débitos pendentes com a empresa, criando um ciclo de endividamento e retenção forçada.
As denúncias incluem ainda jornadas exaustivas de até dez horas seguidas, sem intervalos adequados para descanso ou mesmo para necessidades básicas. “Tem dias que fico até cinco horas direto rodando sem poder ir ao banheiro. O que prometeram era 44 horas semanais, mas não tenho mais tempo nem para a família”, relatou outro funcionário.
A falta de apoio psicológico é outro ponto crítico. Um motorista contou que quase atropelou uma pessoa que se jogou na frente do ônibus e, mesmo abalado, foi simplesmente orientado a continuar a viagem. “Desde que entrei, há quatro meses, venho sentindo coisas ruins. O estresse é imenso, não consigo parar de tremer. Parece que estou dentro de um pesadelo”, descreveu.

As denúncias atuais reforçam problemas que já vieram à tona durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em junho de 2025. Na ocasião, motoristas relataram situações de assédio moral, como a cobrança por acidentes e avarias, além de punições internas, chamadas de “gancho”, que suspendem o trabalhador sem remuneração por tempo indeterminado.
Com base nesses depoimentos, o MPT-MS instaurou um procedimento para investigar seis frentes principais de irregularidades no Consórcio Guaicurus:
O MPT-MS notificou o Consórcio para apresentar documentos atualizados sobre as condições ambientais de trabalho, cujos prazos de validade estavam vencidos. O órgão segue apurando o caso.
Procurado, o Consórcio Guaicurus não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
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