

Há seis dias, moradores de diversos bairros de Campo Grande convivem com a suspensão parcial da coleta de lixo doméstico. A Solurb, concessionária responsável pelo serviço, atribui a falha à falta de efetivo. Ex-funcionários, no entanto, apontam a raiz do problema: condições de trabalho consideradas degradantes, com sobrecarga, acúmulo de funções, jornadas que ultrapassam 18 horas e atrasos no pagamento de horas extras e adicionais.
Sob condição de anonimato, um ex-motorista que pediu demissão há um mês afirma que a rotina na empresa é marcada por exaustão, risco constante e salários incompatíveis com a função. “Trabalhei na Solurb por dois anos. Nesse período, vários coletores pediram demissão. É por isso que os processos seletivos são frequentes, mês a mês”, relata.
Ele denuncia ainda que a empresa utiliza um sistema de bonificação que raramente é pago integralmente. “Você perde pontos por coisas simples, como não usar boné ou cartão. Essa bonificação é um atrativo no salário, mas garanto que ninguém recebe os R$ 700. As punições são diárias”, afirma. O trabalhador diz ter ingressado com ação judicial para receber horas extras e adicional de insalubridade não pagos.
Outro ex-funcionário descreve jornadas que beiram o insalubre não apenas fisicamente, mas também psicologicamente. “Não é sobre salário, mas sobre as condições. Muitos coletores e motoristas não têm saúde. Várias vezes garis fizeram manifestações. Tem motorista extrapolando 10 horas de trabalho. O gari também sofre. Cerca de 80% são venezuelanos. Outra questão muito grave é que muitos usam drogas para permanecer acordados. Não há nenhum cuidado com a saúde”, desabafa.
Ainda segundo ele, a falta de efetivo obriga equipes completas a atuar em outros setores após cumprirem suas rotas, sob pena de advertência. “O gestor sempre pede para atuar em outros bairros depois que você termina o seu. Se não faz essa hora extra, é punido e perde a bonificação.”
Desde o último sábado (7), moradores enfrentam o acúmulo de lixo nas calçadas. A Solurb informou que, nos últimos dias, registrou mais de 80 ausências diárias em um quadro ativo de 240 coletores, o que comprometeu a operação em diversas regiões.
Em nota, a empresa afirmou que o maior volume de resíduos se concentra às segundas e terças-feiras, o que dificulta a recomposição imediata do serviço. A concessionária garante que, com a normalização do efetivo nesta quarta-feira, a coleta deve ser regularizada até esta quinta (12).
Bairros afetados: Aero Rancho, Monte Alegre, Nogueira, Aimoré, Enseada dos Pássaros, Radialista, Vespasiano Martins, Parque do Lageado, Portal Caiobá, Bela Laguna, Ouro Verde, Riviera Park, Vila Fernanda, Rancho Alegre I, II, III e IV, São Conrado e Bosque Santa Mônica.
Ton Jean Ramalho Ferreira, presidente do STEAC-MS, reconhece o alto índice de absenteísmo, mas afirma que o sindicato desconhece horas extras não pagas. “Toda demanda que chega até nós é enviada à empresa por ofício e temos retorno. Se o trabalhador se sentir prejudicado, deve nos procurar — inclusive para denúncias anônimas sobre advertências injustas.”
Sobre as punições, Ferreira pondera que o acordo coletivo e a CLT preveem esse tipo de dispositivo, desde que aplicado com justa causa.
A Prefeitura de Campo Grande, por meio da Sisep e da Agereg, informou que acompanha diariamente a execução do contrato com a Solurb e que a empresa comunicou a normalização da coleta a partir desta quinta-feira.
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