

A situação caótica do transporte coletivo de Campo Grande expõe, mais uma vez, a gestão questionável do Consórcio Guaicurus. Enquanto a população sofre com um serviço notoriamente ruim, a concessionária usa seus 1.100 funcionários como reféns, ameaçando paralisação por não pagar salários – um problema recorrente que ela sempre joga na conta do poder público.
A alegação de atraso nos repasses da Prefeitura soa como uma desculpa esfarrapada para mascarar sua própria incapacidade gerencial. O consórcio, que opera com 461 ônibus e um contrato milionário, parece não ter qualquer planejamento ou reserva para cumprir suas obrigações mais básicas, como a folha de pagamento. A paralisação de outubro foi um ensaio do que pode vir por pura irresponsabilidade empresarial.
É cínico lembrar que, por ano, este mesmo consórcio recebe um subsídio público monstruoso de R$ 22,8 milhões (R$ 13 milhões do Estado e R$ 9,8 milhões da Prefeitura). Em troca dessa fortuna, que custeia sete modalidades de gratuidade, a população recebe um transporte de qualidade lastimável, que é alvo constante de reprovação. O dinheiro do contribuente, destinado a garantir um serviço essencial, parece simplesmente evaporar, sem reflexo na melhoria do sistema.
O suposto “gargalo” de R$ 8,4 milhões que a Guaicurus aponta desde agosto é a ponta do iceberg de uma relação opaca e desequilibrada. O consórcio se esconde atrás de termos técnicos como “reequilíbrio contratual” e “custo-tarifário” (que coloca o valor da passagem em R$ 7,79, enquanto o usuário paga R$ 4,95) para justificar sua constante mão estendida aos cofres públicos.
Enquanto isso, a ameaça de deixar a cidade parada, às vésperas do pagamento do 13º salário, é a arma final de um negócio que parece operar na base da chantagem, transferindo para o trabalhador e para o usuário o custo de sua própria ineficiência. O Consórcio Guaicurus não é vítima; é, em grande parte, o próprio vilão dessa crise.
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