

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) acendeu um novo alerta no turbilhão que cerca o ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), atualmente afastado da Corte sob acusações de assédio sexual. Desta vez, o foco das suspeitas recai sobre o escritório de advocacia de sua esposa, Katcha Valesca de Macedo Buzzi, que teria movimentado valores incompatíveis com sua capacidade financeira declarada e demonstrado resistência em fornecer informações ao órgão de controle.
De acordo com o documento obtido pelo Estadão, a banca é descrita como “reincidente” em alertas do Coaf. O período analisado compreende entre 15 de outubro de 3 e 15 de janeiro de 2024, e os números chamam a atenção: enquanto a última documentação financeira apresentada pela empresa datava de fevereiro de 2019 e apontava uma média mensal de R$ 58,8 mil, as movimentações registradas no trimestre alcançaram uma média de R$ 1,39 milhão — somente em dezembro de 2024, a conta recebeu R$ 2,6 milhões.
“Até o presente momento, a empresa não apresenta documentação financeira atualizada para embasar capacidade financeira”, diz o relatório. “A empresa titular é de difícil contato, os sócios relatam sempre que estão em viagem. Quanto à solicitação de documentos, os mesmos não prestam informações e demonstram-se resistentes na apresentação.”
Entre as movimentações identificadas, o Coaf destaca um recebimento de R$ 2,9 milhões transferido pelo Banco Pan, antigo Banco Panamericano. Segundo interlocutores ouvidos pela reportagem, o montante teria como destino a atuação do escritório em causas na Justiça de Santa Catarina.
O relatório também aponta um pagamento de R$ 526 mil destinado à AMX Soluções, empresa de consultoria em gestão que já havia sido mencionada em investigações da CPMI do INSS por repasses a outra firma suspeita de envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro.
Em nota, a advogada Katcha Buzzi afirmou ter deixado a sociedade do escritório De Macedo Buzzi & Souza Advogados há um ano e que não tinha conhecimento dos detalhes contábeis mencionados. “Ela não era sócia-administradora e, portanto, desconhece detalhes da contabilidade, bem como os números mencionados”, diz o texto.
A nota acrescenta que “a relação entre advogados e clientes é de natureza sigilosa” e que “a violação do sigilo, sem autorização judicial, constitui grave ilegalidade”. A manifestação, no entanto, não responde ao ponto central levantado pelo Coaf: a recorrente falta de transparência da empresa diante das solicitações do órgão regulador.
O caso ocorre em meio à grave crise institucional que envolve o ministro Marco Buzzi, afastado do STJ sob acusações de assédio sexual. O magistrado é alvo de investigações tanto no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) quanto na própria Corte, e sua defesa nega as alegações.
Procurado, o gabinete do ministro não se manifestou até a publicação da matéria original.
Embora os fatos narrados pelo Coaf não tenham relação direta com as denúncias que afastaram Buzzi do tribunal, a coincidência de ambos os episódios expõe um quadro de fragilidade institucional que tem gerado desconforto nos meios jurídicos e políticos. Especialistas ouvidos pela imprensa destacam que, embora o sigilo profissional seja garantido por lei, ele não pode se sobrepor à obrigação de transparência quando há indícios de irregularidades financeiras.
O caso agora deve seguir sob análise dos órgãos competentes, enquanto o escritório de advocacia permanece sob monitoramento do Coaf por reincidência em apontamentos de movimentação atípica — um histórico que, segundo o próprio relatório, já havia sido comunicado ao conselho em outras oportunidades.
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