

Os dias de Daniel Vorcaro na Penitenciária Federal têm sido marcados por episódios de extrema instabilidade emocional. Preso desde a deflagração da terceira fase da Operação Compliance Zero, o ex-banqueiro dono do Banco Master apresentou surtos de raiva que levaram a comportamentos agressivos contra o próprio corpo e o ambiente da cela.
De acordo com fontes próximas à investigação, Vorcaro chegou a socar as paredes da cela em momentos de crise, além de gritar nomes de autoridades em meio a acessos de fúria. Os episódios teriam se intensificado nos últimos dias, à medida que o banqueiro processa a dimensão das acusações que enfrenta e a perspectiva de uma longa permanência no sistema penitenciário federal.
O comportamento explosivo contrasta com a frieza calculada que Vorcaro demonstrava nos bastidores do poder, onde cultivava relações com integrantes da alta cúpula dos Três Poderes. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o banqueiro mantinha contato próximo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) .
A estratégia da delação
Enquanto lida com a instabilidade emocional, Vorcaro também articula nos bastidores os termos de uma possível delação premiada. A informação é que a ideia inicial do banqueiro é mirar políticos em seus depoimentos, mas poupar integrantes do Supremo Tribunal Federal — especialmente o ministro Alexandre de Moraes, com quem mantinha uma relação próxima e frequente .
A estratégia revela um cálculo político delicado: ao delatar parlamentares e outras autoridades, Vorcaro tentaria preservar sua rede de contatos no Judiciário, apostando que esses nomes poderiam, de alguma forma, influenciar positivamente seu destino processual. Em mensagens obtidas pela PF, o banqueiro demonstrava ter Moraes em sua lista de contatos diretos, com trocas de mensagens inclusive no dia em que foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025 .
"Conseguiu bloquear?", perguntou Vorcaro a Moraes na ocasião, em referência a algo que até hoje não foi esclarecido. O ministro teria respondido com mensagens de visualização única, que desaparecem após a leitura .
"Queria saber de tudo no detalhe"
Entre as autoridades que Vorcaro planeja detalhar em sua delação está o presidente da Câmara, Hugo Motta. Em mensagens enviadas à então namorada Martha Graeff, o banqueiro relatou encontros com o parlamentar que se estendiam até a madrugada, sempre com um tom de curiosidade minuciosa por parte do deputado .
"Hugo saiu daqui quase 3h da manhã. Queria saber de tudo no detalhe", escreveu Vorcaro em 8 de maio de 2025, após uma reunião em sua mansão no Lago Sul, área nobre de Brasília . A namorada reagiu com surpresa: "Wow, amor. Você nem dormiu então" .
As mensagens indicam que os encontros eram frequentes e ocorriam em diferentes contextos. Em 26 de fevereiro de 2025, Vorcaro informou à companheira que participava de um jantar na "residência oficial" com Motta e outros seis empresários . Em 8 de março, relatou ter encontrado o deputado no aeroporto de Brasília e que se reuniriam mais tarde .
Em 20 de março, uma das mensagens mais reveladoras: Vorcaro disse a Graeff que estava em casa quando "Hugo e Ciro chegaram aqui para falarem com Alexandre" — referência a um encontro que reuniu Motta, o senador Ciro Nogueira e o ministro Alexandre de Moraes .
Relações com Ciro Nogueira
O senador Ciro Nogueira também ocupa posição de destaque nas conversas. Vorcaro o descrevia como um "grande amigo de vida" e celebrou quando o parlamentar apresentou um projeto de lei que beneficiava bancos médios como o Master, ampliando a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão .
A investigação também encontrou registros de pagamentos a uma pessoa identificada como "Ciro" nas conversas entre Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro do grupo. O senador nega qualquer irregularidade e afirma que não recebeu valores .
O cálculo político
A decisão de Vorcaro de poupar ministros do STF em sua delação revela não apenas uma estratégia processual, mas o reconhecimento de que suas conexões no Judiciário podem ser seu principal ativo em meio à crise. Ao mesmo tempo, ao mirar políticos, ele tenta oferecer à força-tarefa da Operação Compliance Zero aquilo que mais interessa em investigações de grande porte: a exposição das conexões entre o poder econômico e o político.
O comportamento explosivo na prisão, no entanto, acende um alerta sobre o estado emocional do banqueiro. Os surtos de raiva, as agressões contra a parede e os gritos com nomes de autoridades sugerem que Vorcaro enfrenta dificuldades para lidar com o isolamento e a pressão — fatores que podem influenciar tanto sua disposição para colaborar quanto a credibilidade de seus eventuais depoimentos.
Enquanto isso, as investigações avançam. A Polícia Federal continua analisando o vasto material apreendido, incluindo mensagens, e-mails e registros de voos que demonstram a extensão da rede de contatos de Vorcaro nos Três Poderes . O desfecho dessa teia de relações, agora exposta, promete movimentar o cenário político e jurídico nos próximos meses.
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