

Um drone de fabricação israelense avaliado em cerca de R$ 50 milhões caiu na última semana nas proximidades de Campo Grande (MS), durante a realização do Exercício Cooperación XI. O evento ocorreu entre os dias 16 e 27, reunindo aproximadamente 1,2 mil militares de 14 países na base da Força Aérea Brasileira (FAB).
O incidente aconteceu na quarta-feira, dia 25, mas só veio a público na segunda-feira (30). Em contato com a reportagem do Correio do Estado na terça-feira (31), a FAB confirmou a ocorrência, mas não detalhou as circunstâncias. Por meio de nota, informou apenas que "uma Aeronave Remotamente Pilotada (ARP), da Força Aérea Brasileira (FAB), que participava do Exercício Cooperación XI, em Campo Grande (MS), colidiu com o solo, em região desabitada, na quarta-feira (25/03). Não houve feridos".
A nota acrescentou que "o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) vai investigar os fatores contribuintes da ocorrência aeronáutica". O Cenipa, responsável por análises técnicas detalhadas, atua com foco na prevenção de novos incidentes, sem caráter punitivo.
Antes do início do exercício, a FAB já havia informado que um drone modelo RQ-900 seria utilizado nas atividades, consideradas um dos principais treinamentos multinacionais da América Latina. O evento reuniu forças aéreas de diversos países sob a coordenação do Sistema de Cooperação entre as Forças Aéreas Americanas (SICOFAA), com foco em operações combinadas de ajuda humanitária, busca e salvamento e resposta a desastres naturais.
Desenvolvido pela empresa israelense Elbit Systems, o Hermes 900 é classificado como um drone da categoria MALE (média altitude e longa permanência) e é considerado um dos principais instrumentos de vigilância da FAB. Com envergadura de aproximadamente 15 metros e peso máximo de decolagem superior a uma tonelada, o equipamento pode operar por mais de 30 horas contínuas, dependendo da missão.
Sua tecnologia embarcada inclui sensores eletro-ópticos, radares de abertura sintética e sistemas avançados de inteligência, permitindo o monitoramento de grandes áreas em tempo real — essencial tanto para missões militares quanto para operações de apoio civil.
No Brasil, o drone é operado pelo Esquadrão Hórus (1º/12º GAV), sediado na Base Aérea de Santa Maria (RS). A unidade atua em missões estratégicas como vigilância de fronteiras, combate a ilícitos e apoio à defesa civil. O Hermes 900 tem sido utilizado de forma intensiva em cenários reais, incluindo as enchentes que atingiram o Sul do país em 2024, quando contribuiu diretamente na localização de vítimas e no mapeamento de áreas isoladas.
A queda da semana passada não é um caso isolado. Este é o segundo acidente envolvendo o modelo em menos de dois anos. Em maio de 2024, a aeronave FAB 7810 já havia sido perdida durante missões de busca e salvamento no Rio Grande do Sul.
Após aquele episódio, a FAB iniciou o processo de recomposição da frota com a aquisição de uma nova unidade, em parceria com a AEL Sistemas, responsável pela integração e suporte logístico dos drones Hermes no Brasil. No entanto, o novo equipamento ainda não foi entregue, o que agrava o cenário atual.
Com a perda do FAB 7811, a FAB passa a contar com apenas uma aeronave Hermes 900 ativa, de matrícula FAB 7812. A redução drástica da frota levanta preocupações sobre a capacidade operacional do país em áreas estratégicas. Especialistas destacam que sistemas não tripulados de alta complexidade exigem manutenção especializada, reposição rápida e investimentos contínuos — fatores que nem sempre acompanham a demanda operacional de um país com dimensões continentais como o Brasil.
No evento de encerramento dos treinamentos, no dia 27, não houve nenhuma menção ao acidente. Em texto publicado no site da instituição, a FAB informou que o treinamento foi realizado pela primeira vez no Brasil e reuniu cerca de 18 meios aéreos, além de mais de 1,2 mil militares da Força Aérea Brasileira e de forças aéreas ou equivalentes de outros países.
Participaram militares da Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai, além de representantes da Marinha do Brasil (MB) e do Exército Brasileiro (EB). Durante o treinamento, foram realizados cerca de 70 voos para missões simuladas de combate a incêndios, busca e salvamento e evacuação aeromédica.
O objetivo, segundo a FAB, foi aprimorar a coordenação de apoio mútuo, melhorar procedimentos de Comando e Controle (C2) das Operações Aeroespaciais em resposta a incêndios e fortalecer a capacidade de coordenação do país afetado diante de desastres naturais ou antrópicos.
A cerimônia de encerramento foi presidida pelo Diretor do Exercício e Comandante da BACG, Brigadeiro do Ar Newton Abreu Fonseca Filho, e contou com a presença de oficiais superiores das Forças Armadas e representantes das delegações de nações amigas. Na ocasião, foram entregues homenagens e lembranças a militares e forças aéreas que se destacaram durante o Exercício.
Em seu discurso, o Brigadeiro do Ar Newton destacou: “Ao longo desses dias, testemunhamos não apenas a execução de um Exercício operacional, mas também a materialização de um propósito maior: fortalecimento da cooperação internacional em apoio à assistência humanitária, resposta a desastres e integração entre Nações que compartilham valores comuns de solidariedade, profissionalismo e compromisso. As conquistas institucionais e operacionais são inegáveis. Aperfeiçoamos os procedimentos, reforçamos a doutrina, testamos as capacidades, identificamos oportunidades de melhoria e, acima de tudo, fortalecemos. Cada missão realizada, cada planejamento conjunto e cada desafio superado contribuíram para elevar nosso nível de prontidão, mesmo diante de adversidades e dificuldades.”
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