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“Acabou com a minha vida”: O desabafo da esposa e o afastamento do ministro Marco Buzzi após duas denúncias de assédio

“Acabou com a minha vida”: O desabafo da esposa e o afastamento do ministro Marco Buzzi após duas denúncias de assédio

12/02/2026 às 17h54
Por: Redação
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Ministro Marco Buzzi.
Ministro Marco Buzzi.

Por decisão unânime de seus 27 pares, o Superior Tribunal de Justiça afastou cautelarmente o ministro Marco Buzzi, de 68 anos, na terça-feira (10), após duas denúncias de importunação sexual revelarem um padrão de conduta que, segundo colegas de Corte, tornou sua permanência insustentável. O magistrado, que integra o STJ desde 2011, está impedido de acessar o gabinete, utilizar veículo oficial e exercer qualquer prerrogativa do cargo, embora continue recebendo salário de R$ 44 mil mensais. O caso expõe não apenas a gravidade das acusações, mas também o profundo abalo na vida pessoal e institucional provocado pelas revelações.

A primeira denúncia partiu de uma jovem de 18 anos, filha de um casal de amigos do ministro. Em janeiro, durante férias na residência de Buzzi em Balneário Camboriú, ela relatou ter sido puxada pelo braço durante um banho de mar, pressionada contra o corpo do magistrado e apalpada, enquanto ele dizia que a achava muito bonita. Quando tentou se desvencilhar, foi puxada novamente. O boletim de ocorrência registrado em São Paulo descreve a investida com detalhes. A família da jovem, que mantinha relação de proximidade com Buzzi, levou o caso ao Conselho Nacional de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal.

A segunda denúncia, no entanto, foi a que selou a sorte do ministro no tribunal. Uma ex-servidora terceirizada que atuava como secretária no gabinete de Buzzi prestou depoimento ao CNJ na segunda-feira (9) e entregou um relato contundente, gravado em vídeo, no qual descreve uma rotina de abusos ocorridos ao longo de 2023. Ela contou que os episódios começaram com elogios insistentes e evoluíram para toques nas nádegas em quatro ocasiões distintas: no cubículo ligado à sala do ministro, na biblioteca do gabinete e em corredores internos. Em todas elas, Buzzi agia em silêncio.

A servidora, única provedora da família e elo mais frágil na hierarquia do gabinete, permaneceu no emprego por necessidade. Apenas em uma ocasião, quando o ministro apertou com força sua nádega, ela conseguiu reagir, segurando seu braço e o afastando. Buzzi recuou e pediu desculpas. Ao procurar a chefe de gabinete para relatar os abusos, a vítima ouviu que estava chocada e que a solução seria mudá-la de horário. Percebendo que nada seria feito, adoeceu, desenvolveu problemas psicológicos e perdeu parte da visão. Só denunciou ao ler a notícia sobre a primeira vítima. Como prova, entregou aos investigadores a gravação da conversa com a chefe de gabinete — e três assessores do ministro já confirmaram a versão aos colegas da Corte.

Minutos antes da sessão que determinaria seu afastamento, Buzzi apresentou um atestado médico solicitando licença de 90 dias para tratamento psiquiátrico com ajuste medicamentoso, alegando ainda patologias cardiológicas comórbidas. O pedido, porém, não impediu a deliberação do plenário. A avaliação interna era a de que o STJ precisa parar de sangrar e agir com autonomia e independência. Nas palavras de um ministro, o STJ virou cena de crime, e de um crime abominável.

A defesa de Buzzi classificou o afastamento como medida desnecessária e criticou a formação de um arriscado precedente de afastamento de magistrado antes do crivo do pleno contraditório. Sustenta que não há risco concreto à investigação e que o ministro já estava licenciado para tratamento médico. Em carta enviada aos colegas na véspera da sessão, Buzzi afirmou que demonstrará sua inocência e que jamais adotou conduta que envergonhasse a família ou maculasse a magistratura.

Paralelamente à estratégia jurídica, seus advogados buscam contraprovas. Imagens de câmeras de segurança e relatos de vizinhos foram solicitados para robustecer o argumento de que a queixa da jovem de 18 anos não procede. A defesa também tem ressaltado que Buzzi utiliza bengalas e tem problemas de locomoção, o que, fisicamente, tornaria difícil agir como descrito pela vítima.

A filha do ministro, a advogada Vitória Buzzi, saiu em defesa do pai e contestou a narrativa de proximidade familiar sustentada pela jovem. Para ela, é um absurdo a alegação de que a moça teria intimidade com a família ou com seu pai, uma vez que as filhas sequer a conheciam e ela nunca fez parte do convívio familiar. Vitória afirmou que a relação de sua família com a mãe da denunciante é recente e que nunca existiu a dinâmica de avô e confidente relatada pela jovem à polícia.

Em meio à batalha de versões, o desabafo da esposa de Buzzi expôs a dimensão humana e privada da crise. Em um grupo de WhatsApp, ela escreveu aos amigos, abalada, após receber por escrito o relato do pai da jovem de 18 anos. Disse estar difícil, que sua vida acabou, que nunca imaginaria algo assim nem em seus piores pesadelos e que ainda não sabia o que fazer. Em outro trecho, saiu em defesa da conduta pregressa do marido, pedindo que entendessem que estava casada há 43 anos e que nunca acontecera nada dessa natureza. Na sequência, comunicou que deixaria a casa onde estava com o ministro. Buzzi, que também integrava o grupo, não se manifestou.

O pai da jovem, por sua vez, utilizou o mesmo grupo para defender a filha e criticar duramente o magistrado. Afirmou que o ministro não foi capaz de compreender que não estava tratando com qualquer menina, mas com uma mulher de atitude, corajosa e de futuro brilhante, que jamais seria afetada por tamanho absurdo. Disse que Buzzi confundiu a doçura, a educação e a simpatia de sua filha, achando que ela iria se calar. Ledo engano, concluiu.

Nos bastidores do STJ, a irritação com Buzzi não se deve apenas à gravidade das acusações, mas ao silêncio que manteve por quase um mês após o episódio em Santa Catarina. Integrantes da Corte, incluindo a cúpula, só souberam do caso pela imprensa. Interlocutores avaliam que o ministro poderia ter avisado os colegas e adotado medidas preventivas, como pedir licença, para evitar que o tribunal fosse surpreendido por uma crise institucional. A avaliação predominante é que Buzzi perdeu condições de permanecer no cargo e que a melhor saída seria antecipar a aposentadoria — aos 68 anos, ele ainda poderia atuar por mais sete anos na Corte.

O plenário do STJ marcou para 10 de março a sessão que analisará o relatório final da sindicância interna e poderá decidir pela aposentadoria compulsória do ministro. Em paralelo, o caso tramita no CNJ e no STF, onde Buzzi responde criminalmente por foro privilegiado. Se condenado, pode ser preso.

A defesa do ministro afirma que já estão sendo colhidas as contraprovas que permitirão, ao fim, a análise serena e racional dos fatos. Enquanto isso, a esposa de Buzzi busca abrigo na casa de amigas, as vítimas aguardam justiça e o STJ tenta, nas palavras de um de seus ministros, estancar o próprio sangramento.

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