

Por gerações, um roteiro se repete na política brasileira: nasce no interior, escala cargos técnicos, infiltra-se em gabinetes de poder e, quase inevitavelmente, migra para as páginas policiais – sustentando-se, é claro, na negação sistemática. A trajetória de Ricardo Chimirri Cândia é um exemplo acabado desse manual. Ele cruzou fronteiras geográficas e institucionais, deixando um rastro de controvérsias que a Justiça finalmente decidiu examinar e punir.
Natural de Corumbá (MS), Cândia estreou como prefeito da cidade em 1992, encarnando o arquétipo do político jovem com discurso gerencial. O script, previsível, levou-o dali a Campinas (SP). Lá, assumiu funções-chave como diretor do Departamento de Planejamento e do Controle Urbano – cargos de poder real, que comandam contratos, obras e fiscalização. Era o "gestor técnico" em posição sensível.
Em 2011, a fachada administrativa rachou. Cândia deixou as colunas políticas para ingressar nas páginas policiais. Investigadores do Ministério Público de São Paulo desvendavam um esquema apelidado de "República de MS", suspeito de fraudar licitações da Prefeitura de Campinas e da Sanasa, empresa de saneamento. O momento emblemático foi sua prisão em flagrante: R$ 30 mil em espécie foram encontrados no porta-malas de seu carro. A imagem, amplamente divulgada, sintetizava as acusações. Poucos dias depois, veio o habeas corpus e a soltura, em um movimento comum ao roteiro: o choque da prisão seguido pela liberdade provisória.
Em depoimentos, Cândia negou tudo, como é seu direito. O processo, porém, seguiu. Após anos de tramitação, a Justiça de Campinas emitiu seu veredito: sentença condenatória de aproximadamente 13 anos de prisão por crimes como fraude em licitação, corrupção e formação de quadrilha no Caso Sanasa. A condenação, passível de recursos, segue o rito legal, mas registra na história um fato inquestionável.
O Legado: Quando a Retórica "Técnica" Encontra o Papel Timbrado da Sentença
Os fatos são públicos. Não se trata de narrativa, mas de registro judicial: cargos de alto impacto, investigações detalhadas e uma condenação penal. O caso escancara a lição mais dura para a política que se diz técnica e moderna: o Estado é grande demais para amadores e sério demais para que gestão seja confundida com poder sem freios. Quando o discurso administrativo colide com a prova nos autos, o que resta não é argumento – é sentença.
Este texto baseia-se exclusivamente em informações públicas veiculadas pela imprensa e em decisões judiciais, respeitando os direitos à defesa, à presunção de inocência até o trânsito em julgado e ao contraditório. O espaço permanece aberto para manifestação do citado.
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