

Em pronunciamento na abertura da 4ª Conferência Nacional de Economia Popular e Solidária (Conaes), em 13 de agosto de 2025, Lula afirmou que o Brasil seria “em muitas coisas, muito mais democrático” que os Estados Unidos, acrescentando que Trump "seria julgado aqui" se tivesse invadido o Capitólio, como ocorreu em 6 de janeiro de 2021 .
A fala segue uma narrativa de vitimização ("Nós até perdoamos eles por envolvimento no golpe de 1964") e impõe uma agenda ideológica que relativiza problemas estruturais históricos e atuais no Brasil .
- A comparação ignora nossa própria Constituição fragilizada e o adoçamento do poder
A Constituição de 1988 consagrou medidas polêmicas como o foro privilegiado e o voto obrigatório — criticados por limitarem agilidade judicial e impor coerções à cidadania .
Comparar-se com falhas dos EUA (como retrocessos durante governos Trump) não torna o Brasil mais democrático; evidencia, na verdade, disputas políticas de retórica.
- Índices e institutos alertam: a democracia americana está em erosão — não “superior”
Segundo o Bright Line Watch e a Freedom House, os EUA sofreram retrocessos significativos em liberdade política e direitos civis desde 2016. No entanto, isso não significa que o Brasil esteja livre de seus próprios problemas — como burocracia legislativa, corrupção e crises de representatividade .
Não há como comparar democracias sem considerar indicadores concretos, como o Democracy Index da Economist, que avalia pluralismo, função de governo, cultura política e liberdades civis .
- Narrativa conveniente e censura seletiva
Lula acusa os EUA de “destruir o multilateralismo” e critica a suspensão de vistos de ministros do STF como “inaceitável”, enquanto ignora críticas legítimas sobre censura digital e repressão de apoiadores de Bolsonaro — incluídas no relatório anual de direitos humanos dos EUA .
Ou seja, o discurso conserva poder simbólico ao mesmo tempo em que ignora contradições internas relevantes.
Conclusão
A comparação com os Estados Unidos é uma estratégia de politicagem retórica, que tenta elevar o Brasil a um patamar de estabilidade democrática superior, mas falha ao não confrontar as fragilidades institucionais brasileiras. Ao invés de se vangloriar, seria mais construtivo o país fortalecer transparência, reduzir privilégios legais e ampliar liberdade política de forma consistente.
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