

A Prefeitura de Campo Grande enfrenta um cenário cada vez mais apertado nas contas públicas após o decreto do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, que determinou corte de até 25% nas despesas de custeio da máquina estadual. A medida, que visa preservar investimentos estratégicos da ordem de R$ 2,5 bilhões por ano, já começa a gerar efeitos colaterais diretos nos municípios — e a capital sul-mato-grossense está entre os mais afetados.
Atualmente, cerca de 16% da receita total de Campo Grande depende do ICMS, imposto estadual cuja arrecadação impacta diretamente nos repasses obrigatórios aos municípios. Com a tesoura do Estado em ação, os valores que chegam aos cofres da prefeitura já demonstram desaceleração, pressionando o orçamento que em 2025 está previsto em R$ 6,87 bilhões.
Deste montante, a folha salarial do funcionalismo consome R$ 3,39 bilhões, o que representa quase metade de tudo que a capital arrecada. Ou seja: a cada R$ 1 arrecadado, R$ 0,49 vai direto para pagamento de servidores. O restante precisa bancar saúde, educação, infraestrutura, assistência social, transporte, coleta de lixo, iluminação e todos os demais serviços municipais.
MEDIDAS EM ANDAMENTO, MAS AINDA INSUFICIENTES
Diante do quadro, a prefeitura já colocou em prática uma série de medidas para tentar conter o avanço das despesas. Entre elas:
Limites rigorosos para novas contratações;
Suspensão de gratificações e diárias;
Ampliação de carga horária em alguns setores para evitar novas admissões;
Cortes no uso de água, energia elétrica, combustível e impressões.
Entretanto, fontes internas do Paço Municipal admitem que essas ações podem não ser suficientes caso a queda nos repasses continue nos próximos meses. Uma nova rodada de contenções está sendo estudada, com potencial endurecimento nas restrições de contratos, terceirizações, eventos e até revisão de convênios com entidades assistenciais.
Além disso, já se cogita nos bastidores uma reestruturação do organograma administrativo, com possível extinção ou fusão de secretarias e autarquias — algo que já havia sido debatido no início da atual gestão, mas deixado de lado por pressão política.
CENÁRIO COMPLICADO E SEM ALÍVIO FEDERAL
Outro agravante: a prefeitura também não tem expectativa de socorro federal. O atual governo Lula, apesar de prometer descentralização e fortalecimento dos municípios, tem mantido o arrocho fiscal e travado os repasses de recursos livres, inclusive reduzindo o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em vários períodos de 2024 e 2025.
A ausência de um pacto federativo mais justo é frequentemente apontada por especialistas em contas públicas como uma das causas da asfixia municipal. A carga tributária se concentra na União, que arrecada mais de 60% dos impostos nacionais, enquanto estados e municípios, que executam os serviços básicos, ficam com a menor parte e ainda sob risco de cortes.
PRESSÃO POLÍTICA E RISCO SOCIAL
Com a aproximação das eleições municipais, o clima político também pesa. Qualquer decisão que afete diretamente o funcionalismo, como congelamento de salários ou cortes de benefícios, pode gerar insatisfação generalizada. Por outro lado, se nada for feito, a prefeitura corre o risco de não conseguir manter os serviços essenciais ou atrasar salários em 2025 — o que seria devastador para a imagem da atual administração.
Além disso, há alertas de que um ajuste mal feito pode paralisar programas sociais e obras em andamento, afetando comunidades mais vulneráveis e aprofundando desigualdades urbanas.
Análise
O Estado corta, a União aperta, e a conta sempre sobra para o município — especialmente para quem tem um rombo silencioso na folha de pagamento. A prefeitura de Campo Grande precisa agir com firmeza, responsabilidade e coragem política para evitar o caos orçamentário iminente. Chegou a hora de revisar estruturas, priorizar investimentos e cortar o que for supérfluo, doa a quem doer. O discurso de que “a máquina está no limite” não pode ser mais um escudo para incompetência administrativa. É preciso transparência, planejamento e pulso firme — ou 2025 será o ano do colapso municipal.
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