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Greve dos ônibus em Campo Grande entra no segundo dia e escancara omissão administrativa

Sem acordo, motoristas decidem continuar greve

16/12/2025 às 20h04
Por: Redação
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Greve dos ônibus em Campo Grande entra no segundo dia e escancara omissão administrativa

Campo Grande (MS)Sem acordo, motoristas de ônibus mantêm a paralisação por falta de pagamento e o transporte coletivo segue completamente suspenso, deixando terminais vazios e passageiros sem serviço essencial desde segunda-feira (15). A greve foi decidida em assembleia depois que o Consórcio Guaicurus pagou apenas metade dos salários de novembro e não garantiu o 13º salário e o adiantamento do mês de dezembro — valores que deveriam ter sido quitados no quinto dia útil.

Segundo decisão judicial, ao menos 70% da frota deveria circular mesmo em greve, sob pena de multa. A determinação, emitida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região, foi ignorada pela categoria e pela empresa, que manteve 100% dos ônibus parados, incluindo veículos estacionados nas garagens sem ninguém a bordo.


Decisão judicial desrespeitada e multa dobrada

O desembargador César Palumbo Fernandes chegou a aumentar a multa diária para R$ 100 mil, exigindo a circulação mínima de ônibus, diante da essencialidade do serviço. Ainda assim, o movimento segue firme e decidido a não voltar ao trabalho enquanto os salários não forem integralmente pagos.

Essa postura, nas palavras de sindicalistas, não se trata de rebeldia, mas de uma resposta à inércia de uma operação que já era instável antes da greve.

A paralisação expõe, mais uma vez, a fragilidade do sistema de transporte coletivo na Capital — um modelo que acumula problemas de planejamento, fiscalização e compromisso com a população.


Multa sobe para R$ 200 mil, mas crise persiste e revela esgotamento do modelo

A decisão judicial que elevou a multa diária para R$ 200 mil caso os motoristas do Consórcio Guaicurus não encerrassem a greve escancara o nível de tensionamento institucional ao qual o transporte coletivo de Campo Grande chegou. A Justiça tenta conter o colapso do serviço essencial por meio de punições financeiras, mas o efeito prático é nulo: os ônibus continuam parados e a população segue refém do impasse.

A multa, na prática, transfere o problema para o papel — não resolve salários atrasados, não garante circulação mínima e tampouco enfrenta o ponto central da crise: a incapacidade da concessionária de cumprir obrigações básicas mesmo após sucessivos repasses públicos. Ao insistir apenas no caminho punitivo contra trabalhadores, sem intervir na gestão do consórcio ou avançar para a quebra do contrato, o poder público adia decisões estruturais e normaliza o caos, tratando um colapso sistêmico como se fosse apenas um problema disciplinar.


Poder público desvia o foco e evita intervenções necessárias

Apesar da crise flagrante, as respostas da Prefeitura de Campo Grande, da Agereg e de outros órgãos responsáveis têm sido insuficientes. A administração municipal repetiu nos últimos dias que os repasses ao consórcio estão em dia, que antecipou milhões em subsídios e que o município não tem dívida com a concessionária.

Mas na prática, essa defesa técnica não se traduz em medidas que protejam o direito da população ao transporte coletivo digno e contínuo. A lei de concessão assinada em 2012 prevê mecanismos claros — desde advertências e multas contratuais até a declaração de caducidade da concessão — quando há falhas graves na prestação de serviço.

Não há registro efetivo de que esses instrumentos tenham sido mobilizados até o momento, apesar de reclamações e cobraças públicas apontando para isso ao menos desde a CPI do Transporte na Câmara Municipal.


Contradição entre discurso e ação: até quando?

O discurso oficial repete números, datas de repasse e planilhas para demonstrar equilíbrio financeiro. Mas se a concessionária afirma incompetência em honrar folha e benefícios — e os trabalhadores permanecem sem pagamento — algo muito claro está dando errado. São décadas de subsídios públicos, dezenas de milhões pagos ao consórcio e, no entanto, segue-se a mesma crise que já paralisou Campo Grande outras vezes neste ano.

Especialistas, parlamentares e mesmo vereadores têm sinalizado que a simples aplicação de multas não basta quando um contrato é incapaz de garantir um serviço essencial em questões básicas como salário, logística e continuidade operacional.


Quem paga a conta?

Enquanto prefeito, agências reguladoras e representantes públicos se escondem atrás de relatórios financeiros e notas oficiais, quem paga a conta é o cidadão comum: estudantes, trabalhadores, idosos e pessoas que dependem do transporte coletivo para qualquer tarefa cotidiana. A falta de ônibus representa não apenas um transtorno momentâneo, mas o fracasso de uma política pública que não protege seus direitos nem responsabiliza adequadamente seus prestadores de serviço.

Se nem mesmo recurso judicial, audiência marcada ou mobilização da Câmara Municipal são suficientes para obrigar a correção de rumos no transporte coletivo da Capital, qual será o próximo passo para que o poder público deixe de apenas administração de crise e assuma uma postura de intervenção concreta, transparente e efetiva

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