

Campo Grande (16/12/2025) – Enquanto milhares de campo-grandenses enfrentam a realidade dura de não ter ônibus para se deslocar pela cidade, uma ação popular ganha força na Justiça pedindo intervenção urgente no Consórcio Guaicurus, que opera o transporte coletivo da Capital.
O pedido, que tramita na 2ª Vara de Direitos Difusos, exige decisão judicial em 72 horas, após a deflagração de uma greve dos motoristas a partir de hoje, dia em que o serviço ficou completamente paralisado por falta de pagamento de salários.
O autor da ação aponta que o contrato de concessão prevê a intervenção da Prefeitura quando a concessionária não cumpre suas obrigações — e que esse momento já chegou. A medida pedida é clara: afastar os administradores do Consórcio por 180 dias, revisar o contrato, suspender reajustes e benefícios e, ao final, anular a concessão para abrir nova licitação.
Os motoristas aprovam a greve por unanimidade após uma semana com salários atrasados — incluindo o salário de novembro, 13º salário e o adiantamento previsto para dia 20 —, condição que motivou a paralisação sem previsão de término.
Segundo sindicalistas, a categoria teve apenas parte do salário paga (cerca de 50%), insuficiente para atender às necessidades básicas dos trabalhadores. A decisão da Justiça do Trabalho determinou que 70% dos motoristas retornem ao trabalho sob pena de multa diária de R$ 20 mil ao sindicato, mas a categoria aponta dificuldades para cumprir a ordem, dada a falta de comunicação efetiva e mobilização.
O Consórcio Guaicurus alega que sofre com crise financeira devido a atraso em repasses do Poder Público, justificando a incapacidade de honrar compromissos trabalhistas.
Mas a Prefeitura de Campo Grande rebate fortemente essa versão: em nota oficial, garante que todos os repasses de subsídios e recursos previstos em lei estão em dia, inclusive com adiantamento de recursos, e nega atrasos que possam justificar a paralisação.
A Agereg (Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos Delegados) também emitiu nota afirmando que a greve é sem justificativa e que o poder público tem cumprido suas obrigações. A agência ainda reforçou que notificou o consórcio para que medidas fossem adotadas a fim de evitar prejuízo à população.
A Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), embora não seja figura central nas notícias mais recentes sobre o caso, historicamente participa das discussões sobre mobilidade urbana e deveria ser mais incisiva na fiscalização da empresa e na articulação de soluções — o que especialistas e representantes da sociedade civil apontam como dever negligenciado no atual impasse.
O cenário expõe uma falha institucional grave: a população — usuários do transporte coletivo, trabalhadores, estudantes e idosos — é deixada sem respostas claras sobre como se deslocar pela cidade. Terminal após terminal, a situação é a mesma: ruas vazias de ônibus, passageiros recorrendo a aplicativos e caronas, trabalhadores perdendo renda por não conseguir chegar ao emprego.
Enquanto isso, a Prefeitura prefere debater tecnicalidades jurídicas e a Agereg reforça que está “fazendo a parte dela”, mas não apresenta um plano de emergência popularmente acessível que resolva a crise imediata nem uma estratégia de longo prazo que garanta transporte digno e seguro para os campo-grandenses.
O que se vê é um jogo de empurra entre órgãos públicos e concessionária, com pouca transparência, responsabilidade difusa e cumprimento irregular das obrigações contratuais. A ação popular — mais do que um instrumento jurídico — é um grito da sociedade que se recusa a ser silenciada em meio ao caos urbano.
A crise no transporte coletivo não é apenas uma questão de salários atrasados ou de concessões mal geridas: é um sintoma claro do descaso administrativo, da falta de planejamento e da ausência de uma política pública eficaz que priorize o direito à mobilidade e ao trabalho digno dos cidadãos de Campo Grande.
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